Terry Gilliam Quer Fazer “Dom Quixote” Impossível

Em uma entrevista para o jornal português Expresso, o membro do Monty Python Terry Gilliam falou sobre a sua mais nova produção: The Man Who Killed Don Quixote (O Homem Que Matou Dom Quixote).

Segundo o python, a ideia do filme surgiu logo depois de ter lançado “As Aventuras do Barão Munchausen”, de 1988. Foi quando caiu em suas mãos esse livro bastante excêntrico. “Lembro-me de pensar: ‘Caramba, isto é muito extraordinário! É um romance impossível!'”.

É possível adaptar “Dom Quixote” para o cinema?
“Não gosto de dizer que nada é impossível, mas há quem já tenha feito. Lembro-me, por exemplo, de uma versão da TV espanhola, com o grande Fernando Rey no papel principal. Mas aquilo era tão arrastado, tão pesado e inútil. Esse peso era o da responsabilidade”

Como você vai fazer então?
“Vou fazer um filme que quer escapar do livro. E, num gesto de puro atrevimento, ouso me colocar no lugar de Cervantes e reescrever esta história. É como um daqueles pesadelos que não nos largam, temos de matar o monstro. Vamos rodar ainda este ano, começar a montagem no início do ano seguinte. Quem sabe se em 2017 não estamos aqui em Cannes a mostrar o que fizemos”.

O que pode dizer sobre esse personagem que Adam Driver vai interpretar?
“Ele é um especialista em marketing e publicidade. É um vendedor de sonhos. Chama-se Toby Grisoni, mas ele não sonha, não tem fantasias. Não tem imaginação. É o oposto de Dom Quixote”.

Mas é o Sancho Pança?
“Hum… Vai ter de esperar para ver…”

Enquanto homem de comédia, vai insistir no humor quando a produção começar?
“Não tenho outro remédio: é que o humor já está lá, vem de Cervantes. E eu não consigo fazer nada sisudo, é uma coisa orgânica, os meus filmes estão sempre à procura da comédia. Mas Dom Quixote também é tragédia! E uma mensagem de esperança para os mais desesperados”.

Anunciou que Michael Palin, um “ex-Monty”, vai interpretar Dom Quixote…
“Acontece que Michael não faz Dom Quixote! Faz alguém que pensa que é Dom Quixote! Ninguém neste filme é quem parece ser”.

Em quem mais foi pensando para o elenco?
“Muita gente entrou e saiu do projeto. Quando me parecia que o filme podia ser feito, eu comecei a contactar pessoas. Pensei que o Robert Duvall faria um grande Quixote. No ano passado, tinha o John Hurt, mas depois foi diagnosticado com câncer. Ele está recuperado agora, mas a sua agenda ficou cheia, não encaixava na nossa, e eu quero rodar o mais cedo possível”.

Abaixo, algumas cenas do filme que Gilliam tentou filmar em 2002, sem sucesso.

Consegue imaginar este filme visualmente?
“Consigo imaginar os moinhos de vento, pois sei muito bem onde é que eles estão. Os cenários estão escolhidos há 20 anos e não mudaram. O que é novo no projeto é que, com a chegada do [produtor] Paulo Branco, não vamos só filmar na Espanha e nas ilhas Canárias, mas também em Portugal”.

Você é um homem melancólico?
“Sou. Dom Quixote de la Mancha também é. Melancolia é uma palavra que as pessoas já quase não usam. Não é depressão, é um sentimento de perda de qualquer coisa, ou algo de extraordinário que já foi vivido e que não voltará a ser. Se trabalharmos bem, ‘The Man Who Killed Don Quixote’ será um filme melancólico. Talvez a melancolia venha da loucura, ou de uma obsessão”.

Thiago Meister Carneiro

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 39 anos na cara. Às vezes grava o podcast Pythoneando, e às vezes assiste Monty Python na Netflix. Autor do livro "A História (quase) Definitiva de Monty Python" e do ebook "O Guia da Carreira-Solo dos Membros do Monty Python"

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