• Thiago Meister Carneiro

Flying Circus: O Papagaio Morto do Monty Python

300px-DeadParrotNo dia 7 de dezembro de 1969, o dia amanheceu normal. Só que, à noite, tinha Monty Python na tevê.

À noite, ia passar o episódio “Full Frontal Nudity (Nudez Frontal Completa)” (episódio 8 da primeira temporada) da série Monty Python’s Flying Circus.

A população da Inglaterra não sabia o que iria presenciar.

Será que eles estavam prontos para o que viria a seguir?

E, finalmente, a noite chegou. Os habitantes do grandioso reino da Inglaterra estava ligado na BBC.

Teve início a série. E, por fim, teve início o esquete The Dead Parrot ou, em bom português, O Papagaio Morto.

PAPAGAIO
Escrito por John Cleese e Graham Chapman, esse esquete retrata um conflito entre um cliente descontente (Cleese) e um atendente de uma loja de animais (Palin), com posições contraditórias sobre a vida e a não-vida de um papagaio da espécie “azul norueguês”.

O esquete, que zomba dos eufemismos para a morte utilizados na cultura britânica, foi inspirado no roteiro do esquete “O Vendedor de Carros”, da série How To Irritate People, de John Cleese.

Ah, e o esquete do vendedor de carros foi baseado em um incidente real entre Palin e um vendedor de carros, quando o carro que Palin havia comprado praticamente se desmanchou.

ESQUETE
Durante o esquete, o atendente tenta convencer o cliente de que o papagaio está apenas descansando, quando na verdade, está completamente morto.

É aí que Cleese começa o seu famoso monólogo:

John Cleese: “Isso é o que eu chamo de um papagaio morto”

Michael Palin: “Não, ele está apenas descansando”

John Cleese: “Aquele papagaio está realmente morto. E quanto eu o comprei, há meia hora, você me garantiu que sua falta de movimentos era porque estava cansado e tinha acabado de ter relações sexuais. Por que ele caiu de costas quando eu cheguei em casa?”

Michael Palin: “O Norueguês Azul prefere dormir de costas. Bela plumagem, não?”

John Cleese: “A plumagem não tem nada a ver. Ele faleceu. Esse papagaio não é mais. Ele parou de ser. Ele expirou e foi se encontrar com o Criador. É um papagaio falecido. É um cadáver. Sem vida, ele descansa em paz. Se você não tivesse pregado ele, ele teria sido puxado para o céu. Ele abriu as cortinas e juntou-se ao coral invisível. Isso é um ex-papagaio”.

O coral invisível a que John Cleese se refere foi retirado de um famoso poema de George Eliot, que termina com o dístico “Assim, que eu junte-me ao coral invisível / Cuja música é a alegria do mundo” (So shall I join the choir invisible / Whose music is the gladness of the world).

REFERÊNCIAS
No primeiro filme do Monty Python, E Agora Para Algo Completamente Diferente, o esquete termina com o lojista explicando que sempre quis ser um lenhador, e começa a cantar “The Lumberjack Song”.

No álbum Monty Python Live at Drury Lane, a piada é um pouco diferente da versão para a tevê. O esquete termina com o lojista dizendo que tem uma lesma que fala. Cleese, após uma breve pausa, diz:

“Certo. Tenho que ter uma, então!”

No memorial em homenagem ao recém-falecido Graham Chapman, Cleese usa as falas do esquete, citando Chapman no lugar do papagaio.

Uma piada datada de cerca de 400 d.C., mostra semelhanças com o esquete do papagaio morto. A piada faz parte do Philogelos, uma compilação de 265 piadas gregas (considerado o livro de piadas mais antigo do mundo).

Na versão grega, um homem reclama com um comerciante que seu novo escravo morreu. Ao que o vendedor responde:

“Quando ele estava comigo, nunca fez uma coisa dessas!”

FÓSSIL
E, para quem duvida da existência de um pássaro azul norueguês, em 2008, o inglês David Waterhouse, um especialista em fósseis, descobriu que os papagaios azul norueguês realmente existiram na Escandinávia cerca de 55 milhões de anos atrás.

Ele fez essa descoberta assim que recolheu uma asa fossilizada de uma mina na Dinamarca.

Logo, percebeu que veio de um pássaro que pertencia à família do papagaio. “Eu me especializei em fósseis de aves, e também sou fã de Monty Python, então eu tenho vivido com piadas sobre papagaios mortos por anos”.

CHAPMAN
Por ocasião dos shows Monty Python Live (mostly), em 2014, Londres amanheceu com um pássaro morto gigante em um de seus parques.

O pássaro em questão é o Norueguês Azul, e foi esculpido em fibra de vidro por Iain Prendergast. “Somos todos fãs de Monty Python, e tivemos o maior prazer em recriar o mítico azul norueguês em uma escala gigantesca”.

Durante esse show, o texto foi ligeiramente modificado para homenagear Graham Chapman: em vez de falar “Ele foi se encontrar com o Criador”, John Cleese fala “Ele expirou e foi ao encontro do Dr. Chapman”.

Então, Palin e Cleese apontam o braço para cima e, em uma clara homenagem, fazem sinal de positivo.

Mais Coisas Pythonescas:

Jornalista e Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 35 anos na cara. Foi para Camelot, mas desistiu de entrar porque era um lugar muito idiota.