• Thiago Meister Carneiro

A Vida de Brian

a-vida-de-brian-posterLançado em 1979, conta a história de Brian Cohen (Graham Chapman), um jovem judeu que nasceu no mesmo dia em que Jesus Cristo, e posteriormente é confundido com o Messias.

O filme contém uma forte sátira religiosa, motivo de controvérsia na época de seu lançamento, atraindo acusações de blasfêmia e protestos de alguns grupos religiosos.

Trinta e nove autoridades locais no Reino Unido quiseram proibir ou impor alguma censura. A Irlanda e Noruega, proibiram a sua exibição.

Os Pythons, então, resolveram usar essas proibições em benefício da campanha de marketing do filme, e lançaram cartazes dizendo Tão engraçado que foi proibido na Noruega.

O filme foi um sucesso, arrecadando a quarta maior bilheteria de qualquer filme no Reino Unido em 1979 e a maior bilheteria de qualquer filme britânico nos Estados Unidos naquele ano.

O filme recebeu uma classificação de 96% no Rotten Tomatoes, e foi nomeado a maior comédia de todos os tempos por várias revistas e redes de televisão.

Clique aqui para ler o roteiro do filme (em inglês).

FICHA TÉCNICA:

Dirigido por Terry Jones

Produzido por John Goldstone

Escrito por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin

Estrelando: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Connie Booth, Carol Cleveland e Neil Innes

Música por Geoffrey Burgon

Distribuído por: Cinema International Corporation (Reino Unido), Orion Pictures / Warner Bros (EUA)

Duração: 94 minutos

Orçamento: U$ 4 milhões (cerca de R$ 8 milhões)

Bilheteria: U$ 20045115 (cerca de R$ 40 milhões)

ENREDO
Brian Cohen nasceu em um estábulo a alguns metros do estábulo em que Jesus nasceu, o que inicialmente confunde os Três Reis Magos.

Brian cresce um jovem idealista que se ressente da ocupação romana na Judeia. Enquanto frequenta o Sermão da Montanha, Brian se apaixona por uma rebelde, Judith Iscariotes. Seu desejo por ela e o ódio pelos romanos o leva a se juntar à Frente Judaica Popular, um dos muitos movimentos rebeldes de independência que passam mais tempo brigando entre si do que contra os romanos.

Depois de várias desventuras, Brian escapa de Pôncio Pilatos (Palin, com dislalia, um distúrbio da fala caracterizado pela dificuldade em articular as palavras). Tendo que se disfarçar de profeta no meio de uma multidão, Brian fala algumas palavras pseudo-religiosas. Isso rapidamente atrai um público pequeno, mas curioso.

01Sem querer ele acaba inspirando algumas pessoas, que começam a chamá-lo de Messias. Brian, então, foge.

De manhã, ao abrir a janela, percebe uma multidão do lado de fora proclamando que ele é o Messias. Sua mãe, Mandy, (Jones) protesta: “He’s not the Messiah. He’s a very naught boy (Ele não é o Messias, ele é um menino muito travesso)”.

Após fugir da multidão novamente, Brian finalmente é capturado pelos centuriões romanos e levado para ser crucificado. Enquanto isso, a multidão se reúne do lado de fora do palácio de Pilatos.

O imperador tenta acabar com o sentimento de revolução concedendo-lhes a decisão do perdão. A multidão, no entanto, simplesmente grita nomes contendo a letra “r”, a fim de zombar da dificuldade de Pilatos na fala (pois ele troca o “r” pelo “l”).

01Judith aparece no meio da multidão e pede a libertação de Brian, e toda a multidão começa a rir, pedindo para que “Libelte Blian!”.

A ordem de Pilatos é retransmitida aos guardas, mas, em um momento parodiando o clímax do filme Spartacus, várias pessoas crucificadas afirmam ser “Brian de Nazaré” (um homem começou a gritar “Eu sou Brian e essa é minha esposa, o nome dela também é Brian”).

Resultado: o homem errado é libertado.

A esperança de salvação é renovada quando o Esquadrão Suicida da Frente Judaica Popular aparece para salvar a todos, mas, como é o Esquadrão Suicida, eles acabam se matando. Condenado a uma morte longa e dolorosa, Brian encontra seu ânimo levantado por um colega de crucificação, que começa a cantar “Always Look on the Bright Side of Life (Sempre olhe para o lado brilhante da vida)”.

PRODUÇÃO
Existem várias histórias sobre as origens de A Vida de Brian. Uma delas diz que pouco tempo após o lançamento do filme Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado, Eric Idle sugeriu que o título da próxima obra dos Pythons poderia ser Jesus Christ – Lust for Glory (Jesus Cristo – Luxúria por Glória, uma brincadeira com o título na Inglaterra do filme Patton, de 1970).

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Aparição do produtor executivo George Harrison (à direita)

Os Pythons compartilham uma desconfiança religiosa. E, depois de testemunhar a enorme rotatividade financeira do Cálice Sagrado, confirmando um apetite entre os fãs para trabalhos mais cinematográficos, logo começaram a pensar em um filme satirizando o Novo Testamento, da mesma forma que o Em Busca do Cálice Sagrado tinha satirizado a lenda do rei Artur.

Tudo o que precisavam era de uma ideia para o enredo.

IDEIA
Eric Idle e Terry Gilliam, promovendo o Cálice Sagrado em Amsterdã, tiveram uma ideia em que a cruz de Jesus estava desmoronando por causa dos carpinteiros inúteis que a fizeram. Então Jesus, com raiva, os ensina a fazer direito.

No entanto, após uma fase inicial de brainstorm, eles concordaram que Jesus definitivamente foi um bom rapaz, e não encontraram nada para zombar de seus ensinamentos reais: “Ele não é particularmente engraçado”, disse Idle.

Depois de decidirem pelo nome Brian para o protagonista, uma ideia considerada foi a do 13º apóstolo. O foco eventualmente se deslocaria para um indivíduo qualquer, nascido no mesmo dia e localização de Jesus, que seria confundido com o Messias, mas não tinha vontade de ser seguido como tal.

BEATLE
O roteiro começou a ser escrito em dezembro de 1976. O projeto de pré-produção ficou pronto em janeiro de 1978, numa sequência de “uma escrita concentrada de duas semanas e um período de esqui aquático em Barbados”.

01O filme não teria sido feito sem o ex-Beatle George Harrison, que resolveu fundar a produtora Handmade Films para financiar o filme a um custo de £ 3 milhões (cerca de R$ 6 milhões).

Quando perguntado por que financiou o projeto, Harrison comentou que era apenas porque ele queria assistir o filme. Mais tarde, um dos Pythons comentou que “deve ter sido o ingresso mais caro do mundo”.

Como agradecimento, Harrison aparece em uma participação especial como o Sr. Papadopoulos, o dono do Monte, que brevemente aperta a mão de Brian em uma cena de multidão.

ANIMAÇÃO
Além dos créditos de abertura, uma contribuição de Terry Gilliam foi a cena em que Brian acidentalmente pula de um prédio alto e cai dentro de uma nave espacial prestes a se envolver em uma guerra interestelar.

02Isso foi feito usando uma maquete de uma nave construída à mão, claramente influenciado pela trilogia Guerra nas Estrelas. Depois, George Lucas conheceu Terry Gilliam em San Francisco e o elogiou pelo seu trabalho.

LANÇAMENTO
Graham Chapman, ainda sofrendo de alcoolismo, estava tão determinado a desempenhar o papel principal (cobiçado por Cleese), que ele se curou a tempo para as filmagens. Tanto que também fez as vezes de médico (tendo se formado em Medicina em Cambridge), fazendo pequenas consultas aos figurantes.

Após as filmagens entre 16 de setembro e 12 de novembro de 1978, um corte de duas horas de duração do filme foi montado para sua primeira exibição privada, em janeiro de 1979.

Ao longo dos próximos meses, o filme foi reeditado e reexibido inúmeras vezes para públicos diferentes, perdendo uma série de sequências inteiras filmadas.

01BLASFÊMIA
Richard Webster, no livro Uma Breve História do Blasfêmia, comentou que a censura internalizada desempenhou um papel importante no tratamento do filme A Vida de Brian.

Como uma sátira sobre religião, este filme poderia muito bem ser considerado uma produção bastante reduzida. Entanto, o filme foi cercado desde o início pela ansiedade intensa sobre a ofensa que poderia causar. Como resultado, ganhou um certificado de liberação geral só depois de que alguns cortes foram feitos. Talvez mais importante ainda, o filme foi rejeitado pela BBC e ITV, que se recusou a transmiti-lo por medo de ofender os cristãos.

Um membro do conselho do distrito de Harrogate, um dos que proibiu o filme, revelou durante uma entrevista na televisão que o conselho não tinha visto o filme, e tinha baseado a sua opinião sobre o que tinha sido dito no Festival Nacional da Luz.

Em 2008, o conselho de Torbay finalmente permitiu que o filme poderia ser exibido depois que ganhou uma votação online para o Festival Internacional de Comédia.

01Em Nova York, as exibições foram combatidas por rabinos e freiras (“Freiras com cartazes!”, observou Michael Palin).

No Reino Unido, Mary Whitehouse e outros ativistas lançaram folhetos e fizeram piquetes em torno dos cinemas que exibiam o filme, um movimento que ironicamente impulsionou a publicidade.

Uma das cenas mais polêmicas foi o final do filme: a crucificação de Brian. Muitos manifestantes cristãos disseram que ele estava zombando de sofrimento de Jesus. Este também é reforçado pelo fato de que vários personagens ao longo da crucificação contestam Brian dizendo não ser tão ruim quanto parece. O diretor, Terry Jones, emitiu a seguinte réplica a esta crítica:

“Qualquer religião que faz de uma forma de tortura um ícone que eles adoram parece-me uma espécie de religião muito doente honestamente”

Mais tarde, figuras religiosas responderam dizendo que Jones não parece compreender o significado do símbolo do crucifixo para os cristãos como uma lembrança do sofrimento e morte de Cristo. Eles também argumentaram que a crucificação era uma forma padrão de execução em tempos antigos e não apenas uma especialmente reservada para Jesus.

Logo após o lançamento do filme, Cleese e Palin se envolveram no que se tornaria um notório debate no programa de debates da BBC2 Friday Night, Saturday Morning, no qual Malcolm Muggeridge e Mervyn Stockwood, o bispo de Southwark, debateram contra o filme.

01Muggeridge e o bispo haviam chegado com 15 minutos de atraso e não viram uma exibição de imagens antes do debate, mostrando as cenas que demonstravam que Brian e Jesus eram dois personagens diferentes. Os Pythons negaram que estavam tentando destruir a fé das pessoas.

No comentário de áudio de DVD, eles alegam que o filme é herético porque satiriza as práticas da religião moderna, mas que não faz blasfêmia. Quando Jesus aparece no filme (no Monte, falando das bem-aventuranças), ele é retratado com respeito.

JESUS
A música e a iluminação deixam claro que há uma aura genuína em torno Dele. A comédia começa quando os membros da multidão mal ouvem as suas declarações de amor, paz e tolerância (“Eu acho que ele disse, ‘Bem-aventurados são os fabricantes de queijo'”). É importante frisar que ele é distinto do personagem de Brian, que também é evidente na cena em que um chato e ingrato ex-leproso pede dinheiro a Brian, dizendo que desde que Jesus o curou, ele perdeu sua fonte de renda.

O professor James Crossley, do Departamento de Estudos Bíblicos da Universidade de Sheffield, argumentou que o filme deixa clara a distinção entre Jesus e o personagem de Brian para fazer um contraste entre o Cristo tradicional da fé e o da figura histórica de Jesus e seus seguidores.

Em fevereiro de 2007, a Igreja de São Tomás realizou uma exibição pública na própria igreja, com músicas, acompanhamento de órgão, mordomos e barbas falsas para os membros femininos da plateia (aludindo a uma das primeiras cenas, onde mulheres se disfarçam de homens para que possam participar de um apedrejamento).

O reverendo Jonathan Adams, um dos clérigos da Igreja, defendeu o seu gosto em comédia, dizendo não zombar de Jesus, e levantou questões importantes sobre a hipocrisia e estupidez que pode afetar a religião.

POLÍTICA
Antes de tratar propriamente de religião, o filme tira sarro de grupos revolucionários e de políticos britânicos de esquerda. “O que o filme faz é colocar estereótipos modernos em um cenário histórico, o que lhe permite entrar em uma série de piadas afiadas, particularmente com sindicalistas e organizações de guerrilha”.

02Os grupos se opõem à ocupação romana da Judeia, mas caem no padrão da competição entre facções. Michael Palin diz que os vários movimentos separatistas foram modelados em “grupos de resistência modernos, todos com siglas obscuras que nunca me lembro e suas agendas conflitantes”.

Frente Judaica Popular, composta de personagens interpretados pelos Pythons, quer acabar com seus rivais com gritos de divisores e se opõem à Frente Popular Judaica que tem uma campanha para um Galileia livre, e a Frente do Povo (que é composta por um único homem velho, zombando do tamanho das reais facções trotskistas revolucionárias).

Outra cena satírica é a dos revolucionários perdendo tempo em debates intermináveis. Há também a famosa cena em que Reg (Cleese) profere um discurso revolucionário perguntando: “O que os romanos fizeram por nós?”, e os presentes passam a enumerar todos os aspectos positivos da ocupação romana, como saneamento, a medicina, a educação, o vinho, a ordem pública, irrigação, estradas, um sistema de água potável, a saúde pública e a paz. Reg, então, profere “O que os romanos já fizeram por nós, exceto saneamento, medicina, educação…?”.

ELENCO

Graham Chapman: Brian Cohen, Biggus Dickus e o segundo profeta;

John Cleese: Reg, o sumo sacerdote, o centurião do pátio e o primeiro profeta;

Terry Gilliam: Profeta e o carcereiro;

Eric Idle: Sr. Insolente, Stan/Loretta, a mulher que lança a primeira pedra, o assistente do carcereiro e o Sr. Frisbee III (o da música no final do filme);

Terry Jones: Mandy, a mãe do Brian, Simão, o Homem Santo e o transeunte que ajuda o crucificado;

Michael Palin: Sr. Narigudo, o ex-leproso, Pôncio Pilatos e o terceiro profeta;

Kenneth Colley: Jesus Cristo (também fez Guerra nas Estrelas);

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Neil Innes: Um samaritano;

Gwen Taylor: Sra. Narigudo e a mulher com o burro doente;

Carol Cleveland: Sra. Gregory e Elsie;

Sue Jones-Davies: Judith Iscariotes;

George Harrison: Sr. Papadopoulos (não-creditado).

Vários personagens não são nomeados durante o filme, mas seus nomes são usados ​​na tracklist do álbum da trilha sonora. Não há menção no filme o fato de que o personagem de Eric Idle no início do filme é chamado de “Sr. Insolente”, ou que o centurião romano, interpretado por Michael Palin, chama-se “Nisus Wettus”.

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Mais Coisas Pythonescas:

Jornalista Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 35 anos na cara. Foi para Camelot, mas desistiu de entrar porque era um lugar muito idiota.