• Thiago Meister Carneiro

Flying Circus: Satirizando um Personagem Fictício

Não é só de personalidades reais que vive o Monty Python, mas de personalidades fictícias também.

O que vou contar aconteceu no episódio “Salad Days” (episódio 7 da terceira temporada) da série Monty Python’s Flying Circus.

O episódio, que foi ao ar no dia 30 de novembro de 1972, começa com o esquete Biggles Dictates a Letter (Biggles dita uma carta).

Nele, o aviador Biggles (interpretado por Graham Chapman) está diante de uma secretária (Nicki Howorth), e pede para que ela digite uma carta na máquina de escrever.

A confusão pythonesca já começa no diálogo inicial:

Biggles: “Bem, caro rei Haakon…”
Secretária: “Da Noruega, não é?”
Biggles: “Limite-se a escrever o que dito”
Secretária: “Escrevo isso?”
Biggles: “Claro que não”
Secretária: “E isso?”
Biggles: “Ouça! Não escreva isso. Escreva só o que eu… Espere, espere!”

Então o aviador Biggles pega um par de chifres de alce e coloca em sua cabeça.

Biggles: “Quando eu estiver com os chifres estou ditando, e quando tirá-los não estou ditando”
Secretária: “Não estou ditando”
Biggles: “O quê? Leia isso”
Secretária: “Caro rei Haakon, não estou ditando. O quê?”

BIGGLES
Bem, o esquete segue em frente em uma sucessão de piadas sem nexo e completamente pythonescas.

A questão que quero enfatizar é: quem é esse tal de Biggles, que está sendo satirizado nesse esquete?

James Bigglesworth, cujo apelido é Biggles, é um piloto e aventureiro da Primeira Guerra Mundial, personagem-título da série de livros de aventura “Biggles”.

Escritor pelo inglês William Earl Johns (1893–1968), as histórias do aviador eram recheadas de temas adultos (como morte e alcoolismo), apesar de serem voltadas ao público adolescente.

O autor foi, muitas vezes, acusado de racismo. Sendo assim, seus livros foram reeditados várias vezes.

Os livros não continham material sexual, e prezava por valores tradicionais como a bravura do homem e o senso de justiça.

Uma piada que, à primeira vista, pode parecer polêmica e desnecessária no esquete do Monty Python, é exatamente uma crítica aos valores tradicionais da época:

Biggles: “Você é um pedaço de carne e pronto!”
Secretária: “Não sou nada disso, seu personagem fictício demente”
Biggles: “O Algy diz que é”
Secretária: “E como ele saberia?”
Biggles: “Está chamando o meu velho companheiro de florzinha?”
Secretária: “Florzinha! Viado não serve para o Algy, não é?”

Então, Biggles chama Algy (seu primo Algernon) pelo comunicador, e Algy entra na sala:

Algy: “E, então, pessoal?”
Biggles: “Você é gay?”
Algy: “Pode crer, bofe!”

E Biggles dá um tiro em Algy.

Lembremos que é uma sátira aos “valores tradicionais”, tendo em vista que nessa época Graham Chapman já tinha assumido a sua homossexualidade.

REFERÊNCIAS
No esquete “Inquisição Espanhola” há uma referência à Biggles. Nele, Terry Jones aparece com um chapéu de aviador, e se chama “Cardeal Biggles”.

Duas histórias com o aviador Biggles estão inclusas no livro The Brand New Monty Python Bok: “Biggles Is Extremely Silly” e “Biggles and the Naughty Things”.

Mais Coisas Pythonescas:

Jornalista e Especialista em Estudos Linguísticos e Literários, 35 anos na cara. Foi para Camelot, mas desistiu de entrar porque era um lugar muito idiota.